domingo, 18 de outubro de 2009

#43

Existe uma forte tendência da sociedade para tentar normalizar, para limar arestas e reduzir tudo a um mesmo modelo de existência. Sinto essas forças sobre mim, a exigirem que me torne mais bonito, mais conveniente. Em alguns momentos da vida tentei combater a exclusão pela aparência, desenvolvi um potencial de amabilidade, de me tornar uma figura estereotipizada. Tornei-me mais capaz de me ajustar às situações e de representar os papéis que me pediam. Mas ainda assim continuava a sentir-me de fora.

Tenho vindo a aprender a não ter vergonha em mostrar o que sou verdadeiramente, a não temer em demasia o que possam pensar de mim. Sinto-me confiante, capaz de interactuar com os outros de forma honesta e despreocupada, de manter ao mesmo tempo um nível de interesse e de desejo de aprofundamento - é fascinante ir descobrindo o segredo que cada um encerra. Mas ainda assim não me sinto incluído.

Serei demasiado calmo? Prefeririam que eu fosse mais ardente, mais apaixonado? Provavelmente não me faço notar o suficiente, não sou espalhafatoso quanto baste, mas tenho para mim que as coisas mais importantes se dizem baixinho.
Sou uma figura estranha. De que estarei à procura? O quê que me move no dia a dia, que desejos de futuro me levam a perpetuar a vida? O que me faz temer a morte? Não estou de bem com a vida... E talvez o inconformismo me impeça de obter felicidade. De qualquer modo prefiro isso a ter um espírito pequeno. Não me peçam para ser pequeno.


" (...) Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em que temos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser. E por detrás da derrota surge pura a solidão negra e implacável do céu deserto e estrelado. (...) " -- Bernardo Soares, O Livro do Desassossego, #43

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Êxodo

Era suposto terem começado os melhores anos das nossas vidas. Assim nos foi dito, assim espectei que sucedesse. A princípio era tudo muito promissor, as pessoas bonitas e cultas, numa teia de sentimentos e esperanças que se ia tecendo, onde emergiam confianças e camaradagens e se cometiam excessos.

Não me lembro de quando se iniciou a rotura, mas sei que foi despoletada pela inabilidade em amar o próximo. Conviver não é suficiente; a existência de afinidades não é suficiente.

Vejo um mundo feito de contactos convenientes, encontros que se dão porque temos o instinto de fugir da solidão, da não ocupação do pensamento. Só não pensando é que podemos viver uma vida sem afectos. Fingir que nos importamos traz sentido a esta realidade.

Aproximamo-nos naturalmente porque nos conhecemos - conhecemos a existência, não a pessoa - , temos isso em comum. Mas no fundo queremos apenas ser amados.

Vejo um mundo desfeito. Todos rodeados de mentiras... Estas pessoas que se juntam porque a ocasião as aproximou, que falam e riem distraidamente, as suas mentes não estão unidas. Os seus risos não são de prazer, são disso mesmo: de distração. Em alturas de aperto e de sofrimento, será que vão reparar? E dessas, quantas irão acudir? Quantas irão fazer mais que proferir palavras ocas, pré-definidas e repetidas a outros?

Não me venham com merdas de amizades, porque eu sei com quem posso contar...

...

É uma realidade triste. O que fazer? Fugir? Ficar e aguentar as mentiras? Não consigo dar uma resposta a mim próprio, à parte de mim que pergunta se se conseguirá realmente encontrar o amor nesta vida. E encontrar não é a palavra correcta... Será que conseguimos desenvolver um amor verdadeiro nesta vida? Alguém está disposto a isso? E se estiver, o que fazer para que não acabe tudo numa grande desilusão?


Tenho algumas certezas que atenuam a minha descrença, mas...


(Parabéns Daniela)