quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Wild Fire

A vida não se me esgota fora daquilo que são as minhas obrigações enquanto membro de uma sociedade, de uma escola, de uma família. Os meus desejos vão além de me sentir entretido com brinquedos criados pelo homem, de ter o pensamento ocupado com coisas práticas que apaguem as questões da alma e do ser. Recuso-me a adormecer na contemplação das acções dos outros. Recuso-me a ser um espectador de uma peça desenhada para ser a minha vida, e também me recuso a interpretar o papel para o qual fui designado, com um guião onde consta aquilo que é suposto eu dizer.

Eu não sou livre, e sei-o todos os dias. Há muitas coisas na minha vida que não determino, e que não vejo maneira de combater... Sinto-me bastante preso àquilo que faço, sinto que o meu tempo me é roubado de cada vez que abro um livro que não escolhi abrir. Existe ainda a pressão de ter de ser alguém, de assegurar que exista o dinheiro que compre a minha subsistência, os meus luxos. Todos julgam que o dinheiro é quanto basta, mas para mim é o quanto ele me tira.

Sou senhor de pensamentos fragmentados, eles não ligam entre si. Cada um é uma verdade independente, uma revelação espantosa, uma acusação certeira. Aquilo que penso, não penso em vão. O que sinto não é psicótico, é a realidade que me entra pelos poros, é o cheiro que me invade as narinas. A visão clara de um mundo onde tudo está mal, menos a vontade de viver e de amar. Não quero ser mais um, não quero cair na despreocupação que todos têm para com tudo, expecto com o que está mesmo à frente do nariz.

Dizemos que não somos animais, mas o estado a que nos deixámos chegar prova o contrário. Não me digam que a destruição é um produto da racionalidade, porque é apenas a consequência de agirmos por instinto, o instinto da sobrevivência e da satisfação das vontades. E é na humildade do reconhecimento da minha natureza fundamental, a de criatura do mundo, que ouso dizer que triunfarei onde os outros falharam.

domingo, 29 de novembro de 2009

Secretamente

Apetece-me sofrer
Ou não me apetece, mas não o consigo evitar
Tudo o que os outros vivem e eu não vivo me consome
Todas as histórias em que eu não entro me entristecem

Passarei incógnito, e no esquecimento serei sepultado.

O frio sobe-me pelos membros, arrepio-me perante o nada
Cada coisa que deixei inacabada espreita atrás da porta da minha vergonha
Cada emoção que não tive despoja-me de um pedaço de sanidade
Nada é quente, nada é doce
Sou só eu e a minha mente
Eu aprisionado nela, ela devorando sem se dar conta

Somos um só.

Cedo. A luta terminou
Deixei que tudo recomeçasse
Continuo sem me poder mexer
Estático, vou sentindo o sono quente invadir-me os olhos

Lutar é tão difícil. Pudesse a vida ser vivida a dormir...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Credo

Não acredito que o sangue nos possa unir
Não acredito em fingir interesse para parecer bem
Nega-me como eu te nego a ti e seremos livres deste encargo desnecessário

Não acredito em nenhum Deus que me possa salvar da não-vivência
Eu próprio sou o Deus que tem de admitir o insucesso da sua criação
E aceitá-la, e quem sabe amá-la

Não acredito naquilo que se esconde de mim, sabendo-me sincero
A minha honestidade balanceia-me para a frente, empurra para novas conquistas
Se te procuro é porque te quero, se te quero... deixa-me querer

Não acredito que consegui seguir em frente
Ou melhor, acredito. Porque me sinto de olhos e coração abertos
Encontrei quem sou pelo caminho

Não acredito porque aprendi a acreditar .

domingo, 15 de novembro de 2009

Herança

Não consigo dizer, tento gritar
Não tenho voz, estou a sofucar
Palavras pensadas, da cor das trevas
Desejo de justiça, aonde me levas?

O sangue que vaza e que é do meu
Sangra a recordação do que nunca se deu
Vidas seladas pela auto-destruição
A derrota do homem perante a tentação.

É uma herança demasiado pesada
Sempre a culpa nos genes carregada
Não posso aceitar a dávida que me deste
Sabendo tão bem o mal que fizeste.

"I can't forgive you
And I can't forget"

domingo, 18 de outubro de 2009

#43

Existe uma forte tendência da sociedade para tentar normalizar, para limar arestas e reduzir tudo a um mesmo modelo de existência. Sinto essas forças sobre mim, a exigirem que me torne mais bonito, mais conveniente. Em alguns momentos da vida tentei combater a exclusão pela aparência, desenvolvi um potencial de amabilidade, de me tornar uma figura estereotipizada. Tornei-me mais capaz de me ajustar às situações e de representar os papéis que me pediam. Mas ainda assim continuava a sentir-me de fora.

Tenho vindo a aprender a não ter vergonha em mostrar o que sou verdadeiramente, a não temer em demasia o que possam pensar de mim. Sinto-me confiante, capaz de interactuar com os outros de forma honesta e despreocupada, de manter ao mesmo tempo um nível de interesse e de desejo de aprofundamento - é fascinante ir descobrindo o segredo que cada um encerra. Mas ainda assim não me sinto incluído.

Serei demasiado calmo? Prefeririam que eu fosse mais ardente, mais apaixonado? Provavelmente não me faço notar o suficiente, não sou espalhafatoso quanto baste, mas tenho para mim que as coisas mais importantes se dizem baixinho.
Sou uma figura estranha. De que estarei à procura? O quê que me move no dia a dia, que desejos de futuro me levam a perpetuar a vida? O que me faz temer a morte? Não estou de bem com a vida... E talvez o inconformismo me impeça de obter felicidade. De qualquer modo prefiro isso a ter um espírito pequeno. Não me peçam para ser pequeno.


" (...) Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em que temos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser. E por detrás da derrota surge pura a solidão negra e implacável do céu deserto e estrelado. (...) " -- Bernardo Soares, O Livro do Desassossego, #43

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Êxodo

Era suposto terem começado os melhores anos das nossas vidas. Assim nos foi dito, assim espectei que sucedesse. A princípio era tudo muito promissor, as pessoas bonitas e cultas, numa teia de sentimentos e esperanças que se ia tecendo, onde emergiam confianças e camaradagens e se cometiam excessos.

Não me lembro de quando se iniciou a rotura, mas sei que foi despoletada pela inabilidade em amar o próximo. Conviver não é suficiente; a existência de afinidades não é suficiente.

Vejo um mundo feito de contactos convenientes, encontros que se dão porque temos o instinto de fugir da solidão, da não ocupação do pensamento. Só não pensando é que podemos viver uma vida sem afectos. Fingir que nos importamos traz sentido a esta realidade.

Aproximamo-nos naturalmente porque nos conhecemos - conhecemos a existência, não a pessoa - , temos isso em comum. Mas no fundo queremos apenas ser amados.

Vejo um mundo desfeito. Todos rodeados de mentiras... Estas pessoas que se juntam porque a ocasião as aproximou, que falam e riem distraidamente, as suas mentes não estão unidas. Os seus risos não são de prazer, são disso mesmo: de distração. Em alturas de aperto e de sofrimento, será que vão reparar? E dessas, quantas irão acudir? Quantas irão fazer mais que proferir palavras ocas, pré-definidas e repetidas a outros?

Não me venham com merdas de amizades, porque eu sei com quem posso contar...

...

É uma realidade triste. O que fazer? Fugir? Ficar e aguentar as mentiras? Não consigo dar uma resposta a mim próprio, à parte de mim que pergunta se se conseguirá realmente encontrar o amor nesta vida. E encontrar não é a palavra correcta... Será que conseguimos desenvolver um amor verdadeiro nesta vida? Alguém está disposto a isso? E se estiver, o que fazer para que não acabe tudo numa grande desilusão?


Tenho algumas certezas que atenuam a minha descrença, mas...


(Parabéns Daniela)

domingo, 13 de setembro de 2009

A Arte de Amar

Do alto da minha não-sabedoria ouso dizer que o teu amor é medíocre, um produto da solidão e do desejo carnal que te habitam, que te perseguem. És impelido a apaixonar-te, apagas o resto do mundo da tua mente, juntamente com os teus anseios, e vais adornando com as mais belas palavras esse isolamento que tu e a outra pessoa criaram. Não me perguntes como amar, porque me parece ainda um conceito difícil de concretizar, fora do meu alcance de recém-nascido, mas penso que o primeiro passo a dar é apercebermo-nos da fragilidade dos laços que criamos, e a partir daí adoptar uma nova postura relativamente às relações humanas, baseada na honestidade. Contudo, o caminho mostra-se muitas vezes incerto, não se sabe onde se quer chegar, nem ao lado de quem... Acabamos por nos perder, repetindo os erros do passado, e eis que quando atingimos o auge do nosso desespero a inércia da morte chama por nós.

domingo, 16 de agosto de 2009

distorção

Abre os olhos e vê para além da realidade distorcida
O que julgas serem os teus gostos são na verdade paliativos
Todos os planos que constróis para o futuro... são um escape do presente
Acreditamos que a nossa anulação hoje será fonte de reconhecimento amanhã.

A minha vida... pertence-me?
O tempo investido, os dias que não vivo...
Tantas questões por levantar, tantas almas já conformadas.
Por que foi o Homem reprimir-se desta forma em troca de suposta harmonia?
Por que criou uma sociedade programada para o falhanço de cada um de nós?
Para um bem-estar colectivo de que ninguém consegue usufruir
Pois o amor vai desvalorizando face à moeda
E a felicidade de se estar vivo some-se perante a de se estar rico.

Nenhum dinheiro pode pagar as alegrias que não tive no passado
Nem comprar os sorrisos daqueles que dão significado à minha existência.
Não quero mais promessas que me distraiam da decadência em que vivo.
Quero recuperar tudo o que perdi.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

à sombra da vida

Abrimos as velas e vamos ao sabor do vento...
Com a paz de espírito de quem não toma decisões.

Se formos aportar aonde não desejamos ir
Quem haverá então para culpar?

A idade não perdoa a falta de jeito para viver
E assim nos vamos apercebendo que talvez seja tarde.

Será ainda o tempo de parar
E ver se estamos a ir na direcção que queríamos?

Isto penso e escrevo, mas não há a força para mudar
Desapareço na sombra das expectativas alheias
E em breve me tornarei naquilo que a sociedade quer que eu seja.


Porque me pareceram tão distantes os meus sonhos ?

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Queremos paz

Em cada dia criar, sentindo em mim o poder de quem dá vida
Logo em seguida desesperar, porque não era esta a obra pretendida
(E toda a glória vive já no passado)

Sonhando com algo mais, não reparo no que estou a viver
A vida joga-se agora, depressa cairá o anoitecer
(E que mais haverá para ver então?)

Vou com o intuito de conhecer cada coisa, amá-la se puder
Lanço os dados, faço as escolhas, junte-se a mim quem quiser!
(E sei que todos estão sedentos deste querer)

Posso amar eternamente aquilo que crio e que é meu, sabendo que a satisfação será sempre passageira. Ou posso partir em busca de um amor que não pertence a ninguém, mas que está lá porque existe uma afinidade para além da necessidade de ultrapassar a separação.

domingo, 24 de maio de 2009

Sem Nome

Todos vivemos os nossos dias na crença de que existirá sempre o amanhã para remediarmos o mal que fizemos hoje, para completar aquilo que deixámos inacabado; para dizer as coisas que hoje achámos que não fazia sentido dizer. O amor que sentimos não deveria ser compatível com a ideia de ridículo que associamos à sua plena expressão. Não posso mais continuar sem te mostrar que te amo, e sei-o egoisticamente; assim que me sejas roubada, assim que feches os olhos pela última vez... Vou uivar de dor e chorar por todas as coisas que não te disse, por tudo aquilo que sou e vivo e que não partilho contigo. Mas eu não o quis assim, cresci sem saber quem era e como as minhas acções podem afectar o teu mundo. Sempre me vi como algo inerte, à parte do que é real e prático na vida, rodeado pela fina película de uma gigante bolha de sabão. E sair de dentro dessa bolha é o mais assustador.

Gosto de pensar que os anos me têm transformado numa pessoa mais prática e real. Tenho amigos? Consigo dizer abertamente que sim. Sou importante para eles? Tenho agora a tremenda ousadia (que nunca antes tive) de dizer que sim. Mas ser capaz de o afirmar não é o mais importante; o que realmente me deixa a alma em paz, me libera das abissais questões acerca do que sou, é saber que eles contam comigo em cada dia, que me procuram e não têm medo de me deixar entrar e ajudar o melhor que sei - e que pode até nem ser grande coisa, mas acreditem, não é nenhum frete. Não pude nunca ser amado de verdade porque não sabia que também tinha que amar, e muito menos como o fazer; no entanto cuidei que amar era instintivo, e, havendo a oportunidade, fingi que amava, pensando que era a valer.

Para terminar ficaria bem uma citação qualquer, mas que se foda isso. Nunca ninguém poderá dizer melhor que eu aquilo que tenho para dizer.

domingo, 17 de maio de 2009

Desencantamento

Todos temos que acordar um dia
Do torpor em que o amor nos conserva
Vivemos esquecidos de quem somos
Até que por fim o véu se eleva

Naquela vida que era a nossa
Fingíamos não conhecer a solidão
Éramos para o outro o refúgio absoluto
A felicidade sempre ao alcance da mão

Não fosse o sentimento ter quebrado
E o nosso conto teria prosseguido
As maravilhas de uma vida normal
De um futuro a dois prometido

Mas o Destino puxa com mais força
Corta os laços e destrói as pontes
Abraçamos e beijamo-nos uma última vez
E então Ele separa os nossos horizontes

Assim é com alguns escolhidos
Amam sabendo que cedo tudo passa
Vão em busca do prazer onde não há certeza
Até que a horripilante mentira estilhaça

Que será feito agora de nós
Que buscámos no amor a realização
Fomos postos de novo no mundo volátil
Onde as almas não alcançam o nosso coração

A realidade de que não se pode fugir
A tristeza que nos cerca, incontornável
Aproveitemos bem a vida, mas cientes
De que tudo o que buscamos é inalcançável.

domingo, 3 de maio de 2009

Birth

Birth. Unknowingly I came to this world. I cried for the first time, but it wasn't that the feeling of being alive had scared me; I just did what I was supposed to do, and that is how we live our lives, doing what we're supposed to do. I will not ask any questions because I don't feel particularly ill towards anybody or anything; there is no one to blame but myself, because blaming everyone else would be too tiresome and would make them not want to be friends with me. These friends, I found they might stay, and it was a relief to see things can actually turn that way, not having to lose everyone who has carried me at some point, people I have carried (I think). I feel like dreaming of a bright future, imagining those warm evenings with you guys, drinking and partying to our hearts' content, forgetting about all that isn't beautiful and lovable. Our lives won't be put to waste, our souls will not be lost. That is how things should be and your presence is what I'm longing for. Fucking hurry home you bastards.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Eu próprio

Não quero mais ser eu próprio, porque ser eu é procurar constantemente mudar aquilo que sou. A necessidade de suprimir as lacunas que existem em mim deixa-me exausto. Só precisava de não pensar em nada; deixar a vida derrubar-me e logo me levantar sem sentir a minha insignificância. Sacudir o pó da roupa e fazer-me ao caminho.


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Decepcionantes

São belas as promessas das criaturas
Que caminham umas sobre as outras, errantes
Na procura do prazer que oculta a mágoa
Esqueceram-se de nós; que pessoas decepcionantes

É de vós e de vossa cintilante presença
Que esperamos que advenha a Felicidade
Se por acaso nos falta um amigo que nos ouça
Perdemos do viver toda a vontade

Mas que mãos nos puxarão para trás
Quando à nossa frente o abismo se estender
Palavras de reconforto que se perdem no meio das outras
Remorsos e mal entendidos por esclarecer

Também minha alma fechou os olhos à verdade
E tudo deu numa tentativa tosca, bem o sei
Houve momentos em que soube a real, a meu
Mas jamais existirá a amizade que busquei.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Dente de Leão

Nascemos numa condição que é a humana
Sabendo à partida que não era para durar
A beleza do mundo fez-nos esquecer as regras do jogo
E por isso vertemos as nossas lágrimas no momento da despedida

Se não nos voltarmos a ver
As nossas mentes irão procurar-se até ao fim dos tempos
Uma tentando incessantemente tocar a outra
E o fracasso de cada dia dará lugar a um novo recomeço

O desejo de não morrermos sozinhos obseca-nos
Não queremos ser apagados de uma só vez do mundo
A memória que persiste será a nossa reencarnação

Se souberes que existi guarda-me em ti
Espera pelo momento certo para me deixares partir
E então liberta as minhas cinzas pela terra infértil.