segunda-feira, 29 de março de 2010

Idolatria

Diz-me quem queres que eu seja
Como queres que eu seja
Quando quiseres que eu seja.

Diz-me o que me falta ainda
Para que possa estar a teu gosto
Diz-me por favor... que como sou não chega.

Olhas com atenção os contornos da minha imperfeição
Sonhas tudo aquilo que eu poderia ser
E por um momento sentes a felicidade que daí adviria.

E eu rastejo...
Rastejo perante um julgamento tal
Que me deixa reduzido à minha consciência de mim.

Continuo rastejando...
Ante as expectativas que queres que sejam as minhas
Para meu próprio bem.

...

Eu não quero as tuas expectativas
Não sinto a necessidade de reverberar nessa perfeição que idolatras
Sou o melhor de mim mesmo e isso é o suficiente
Pois assim já sou melhor que o mundo.

Espero que agonies na tua imperfeição
Enquanto eu esgoto a minha em amor imperfeito e arte
Serei sempre este belo pedaço de miséria humana que julgaste
Sempre a flor da animalesca condição.

Está na hora de partir...
Não posso ficar mais tempo contigo
Deixarei para trás as mágoas para com quem não compreendeu
Esquecerei a cara de quem não amou.

Eu... eu sou mais forte
Eu... sou mais belo
Eu... sou mais eu do que tu alguma vez foste tu.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Despedida

Preciso de sair
Preciso de ar fresco
Preciso de me reinventar
Tenho sido o mesmo toda a minha vida
Tenho feito o mesmo toda a minha vida
Não quero mais isto
Isto é um adeus.

Quero viver o meu sonho
Quero libertar-me de tudo o que me prende a alguma coisa
Pegar na minha guitarra e partir
Pegar em mim mesmo e ir conhecer-me
Ir à conquista de tudo o que houver e de quem houver
Já não me basta esta realidade estúpida.

Eu não mudei drasticamente
Mantenho os traços principais de quem fui
Continuo a ter uma predileção pela perfeição
Mas comecei a aceitar que existem limites
Continuo desejoso de cuidar e fazer bem aos outros
Mas aprendi a escolher apenas quem o merece
Continuo a querer ser o melhor
Mas isso deixou de ser uma ânsia
Quero apenas que esse ideal me guie e ajude a ser o melhor de mim
Porque o melhor de mim é o melhor para aqueles que me amam.
Aprendi a detestar o que é inútil
Reprimo intensamente as coisas inúteis que me puxam para elas
Tomei as rédeas da minha vida
Ou pelo menos tentei
Aquilo que faço pode ser tosco e estranho
Mas sou guiado pelos ideais mais nobres
Ou se calhar eles nem são nobres
Mas pelo menos são os meus.

Tenho voz.
Finalmente tenho voz.
Ainda sou fraco, mas já não sou tão fraco
Não me deixo pisar como deixava
Não me vão pisar mais assim
Lamento.
Será que ainda desejo vingar-me?
Será?...
E se me vingar, isso irá ajudar em alguma coisa?
Acho que não
Mas tentem dizer isso ao espírito humano.

Vou-me mesmo embora
Desta vez não é a brincar
Vou em busca da independência
Não quero mais brincar às famílias
Não quero nada de quem nunca quis nada
Estava na hora de terminar a farsa
Vou para junto de quem precisa
Vou alegrar uma vida
Vou ajudar a viver quem já deu muito
Vou...
Deixo muito aqui
Deixo demasiado
Tenho que deixar...
Serei egoísta?
Serei mal agradecido?
Sou tudo isso e muito mais
Mas enquanto não crescer não posso voltar
Enquanto não tiver a vida nas minhas mãos não voltarei
Por aquela porta não mais passará uma criança.

Já falei antes das despedidas
Da mudança
Do adeus
Contudo há sempre qualquer coisa para dizer
Qualquer recado para dar
Qualquer boa sorte para desejar
...
Não era isto que eu queria para ti
Mas está na altura de te libertares
Está na altura de saíres de casa...

É agora
Adeus
Nunca me esquecerei de onde parti
Nunca irei negar o meu sangue
Mas aqui irá terminar esta linhagem
Esta casa irá ficar abandonada
Eu serei livre
E feliz.

domingo, 14 de março de 2010

Fluindo como o rio

Quem sabe da vida o que quer
Mais do que a querer perpetuar?
Quem descorre que sentimentos são estes
        E como com eles lidar?

Sei quem quero, mas não sei como quero
Sei quem espero, mas não sei por que espero
O que esperar quando não se espera nada?
        Amando por amar, a realidade é tão clara!

Segurei mãos com a vida, renovada
E a partilha veio como dádiva encarnada
Quem me chama sorri e sente
        A constância de amor presente.

Ontem e hoje, ofereci o que em mim existe
Hoje e amanhã, não quero ver ninguém triste!
Quero ser o canal onde flui a alegria
        A ânsia de sonhar em cada novo dia.

E o sonho que é a realidade
Deixou-me sem vontade de indagar
Pergunto ainda ao coração que pensa ele
        Mas ele só sabe palpitar.

Quem sabe o que quer da vida?
E se souber, sabe-lo-á em cada instante?
Ou te-lo-á perdido dentro de si?

        O rio segue para jusante.