terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Metamorfose

A minha produção literária no presente intriga-me. Escrevi sempre para que o sofrimento não morresse todo comigo, para que ele pudesse ser convertido em algo que me trouxesse atenção e assim ser-me útil.

Vejo agora a tristeza reduzida a recordações, sonho com elas em tardes de outono em que passando nas ruas da minha infância encontro a brincar nos pátios aqueles que foram os meus amigos. Ora aqui, ora ali, o vento que se levanta deixa-me arrepiado, e sinto o desejo de voltar para o calor da minha casa.

Deixei de reviver exaustivamente os meus passos, de imaginar como tudo se deveria ter passado. Era já a hora de aceitar a intangibilidade da perfeição, de acalmar a urgência em controlar e esconder as debilidades. Assim, iniciei o processo da aceitação positiva do eu, aquela em que se reconhece valor nos atributos pessoais que de facto são positivos, sem que no entanto se deseje ser-se outra coisa. Reconheço as minhas qualidades, e mesmo que elas não sejam adoradas pela sociedade, sou capaz de andar de cabeça erguida. Adiciona-se a isto o facto desta aceitação não significar resignação, pois as fraquezas que naturalmente existem podem ser trabalhadas, num processo de crescimento que passa muito pelo relacionamento com os outros e pela partilha de experiências e conselhos de forma honesta.

Apercebi-me então que sou capaz de mudar certos aspectos menos bons em mim. E isto leva-me à face da mudança que mais manifestamente tem entrado na minha vida, o que de mais espantoso se operou na minha mente, e que foi a criação de uma atitude positiva face aos desafios, face à realidade. Criei e solidifiquei a crença na minha força, sinto que posso contrariar as minhas limitações e superar a criatura fraca que fui até hoje. Ganhei confiança.

Esta mudança ocorreu num período em que me lancei à descoberta de novas amizades, após ter sentido a desolação da falta de contacto humano profundo. Foi provavelmente o meu maior desafio, construir ligações que me permitissem fazer parte da existência de outras pessoas a um nível quotidiano e sobretudo afectivo. Não sei se era esta a minha ideia inicial, mas quando dei por mim estava já a desenvolver um carinho, um sentimento de preocupação e interesse por estas pessoas, e a felicidade de ver tudo isto retribuído foi imensa.

Aquilo que escrevo hoje passa muito por celebrar a mudança. Tenho enfim uma voz, ganhei a coragem e a vontade de dizer aquilo que fervilha dentro de mim. A minha opinião pode não contar para muita gente, mas ainda assim quero que a ouçam. O que escrevo pode ser ignorado, mas não é por isso que irei parar de escrever e publicar no meu blog. Tenho uma voz e ela sente a necessidade de exprimir todas as coisas boas que fui capaz de trazer para a minha vida, a alegria que é ter amigos que se entreguem a mim e poder adormecer também nos seus cuidados. Quando somos amados fechamos os olhos muito mais tranquilamente à noite, e adormecemos mais depressa.

Acho que os caminhos sem saída não existem realmente nas nossas vidas, ou pelo menos aqueles que se me afiguraram eram na realidade ilusões. E agora que encontrei o meu caminho, talvez não pareça tão estranho este vigor na minha produção literária .

Um comentário:

Sara disse...

O crescimento é assim. Ai, estás a ficar um homem. ainda me lembro quando eras um bebé nos meus braços!

Agora a sério, é bom gostares desta fase da vida,com tanta porcaria a acontecer (embora isso pouco te afecta, o que é muitas vezes bom)é de realçar a calma e destreza com que caminhas.

lilikoi boy.